Talvez o problema não seja você

notas sobre trauma, culpa e esperança


Algumas dores não começam em nós — mas insistem em morar ali. Escrever este texto hoje é um exercício de vulnerabilidade e uma tarefa desconfortável. A única razão pela qual estou sentado em frente ao computador, tomando um chá de maçã com gengibre — e engolindo o desconforto em goles longos — é o desejo de sair da minha zona de conforto e, talvez, processar um trauma enquanto escrevo o que sinto.

Para alguns de nós, ao longo da vida, existe um sentimento que nos acompanha como uma sombra silenciosa: a inadequação. Caminhamos de lugar em lugar, de relacionamento em relacionamento, vestindo essa peça invisível de vergonha cuja etiqueta parece dizer: assinado por um impostor.

Todo ser humano deseja ser aceito por seus pares — amado, até mesmo. Todos carregamos a

necessidade de pertencer, de comungar. Desejamos uma identidade que nos caiba com honestidade, uma tribo à qual pertencer e um propósito pelo qual viver.

Para muitos de nós, porém, a trajetória humana foi marcada pela realidade do trauma. Uma palavra curta, mas com um peso imenso. O trauma tem o poder de moldar existências inteiras quando não sabemos lidar com ele.

Geralmente sem aviso prévio, ele chega com a força de um fenômeno da natureza, deixando para trás um rastro de destruição. O alcance do trauma é vasto e diverso. Pode nascer de um término de relacionamento que gera frustração inesperada, da perda de pessoas amadas, de doenças graves ou de situações extremas como guerras e acidentes. Há estudos que mostram que experiências traumáticas podem, inclusive, afetar a anatomia do cérebro e desencadear impactos físicos e psicológicos profundos — mas este não é um artigo de psicologia.

É de conhecimento público que vivi inúmeros traumas. Alguns começaram cedo demais. Outros vieram com o tempo. Abusos, racismo, violência, bullying, o divórcio dos meus pais, ambientes de trabalho tóxicos, cancelamento online por motivações políticas em uma era marcada pela cultura do linchamento virtual. Cada um deixou marcas diferentes, mas todos exigiram algo de mim.

Muito cedo, precisei tomar uma decisão: buscar ajuda. Primeiro com pastores e líderes religiosos, porque a Igreja foi o primeiro lugar onde encontrei acolhimento. Depois com terapeutas, conselheiros e psiquiatras.

Ainda jovem, por volta dos 18 anos, entendi que não conseguiria carregar sozinho aquela carga de dor e sentei-me, pela primeira vez, no consultório de uma psicanalista.

Sete terapeutas depois — e uma pós-graduação em psicanálise — tenho clareza sobre algo importante: a ideia de “superar um trauma” é, muitas vezes, uma falácia. Vendida por coaches da era egóica, embalados por slogans como “você pode” e “seja sua melhor versão”, essa narrativa sugere que o trauma é apenas um obstáculo a ser saltado com força de vontade. Não é. E acreditar nisso não é apenas ilusório — é perigoso.

Traumas se tornam parte de nós como feridas indesejadas que, se não cuidadas, se transformam em uma segunda pele adoecida. É preciso um trabalho profundo e intencional de autoconhecimento,identidade e cura para que essas feridas se tornem cicatrizes. Cicatrizes não doem mais, mas permanecem. Não para nos definir — e sim para nos lembrar de que sobrevivemos.

Alguns carregarão essas cicatrizes com orgulho. Outros precisarão de tempo até conseguirem seguir em frente sem tocar no assunto. Há quem transforme a própria dor em serviço, e há até quem transforme traumas em produtos. Tempos estranhos estes em que vivemos.

Independentemente do estágio de cura, uma coisa é comum a quase todos que passaram por traumas: a culpa. Ela não grita. Ela sussurra. Está sempre à espreita, esperando um momento de fragilidade para nos emboscar.

A psicologia chama isso de gatilhos. Quando uma situação semelhante acontece, o cérebro entra em estado de alerta. Ansiedade, insônia, medo, confusão. O problema é que raramente percebemos que não estamos vivendo algo novo — estamos apenas reencontrando o nosso velho conhecido: o trauma.

A culpa funciona como uma névoa espessa. Ela embaça a visão, distorce a realidade e nos convence a entrar novamente no mesmo mar revolto. A mente tenta nos persuadir a aceitar padrões perigosos, tratamentos injustos, situações adoecidas. A narrativa mentirosa do trauma é simples e cruel: se isso está acontecendo de novo, deve ser culpa sua. Então engolimos o choro. E aguentamos.

Recentemente, percebi que estava vivendo algo que, apesar de cenários e personagens diferentes, parecia um replay de uma experiência que quase me destruiu psicologicamente. Levei meses para reconhecer que estava imerso em relações tóxicas e em uma cultura nociva. Ignorei bandeiras vermelhas: comunicação confusa, desrespeito disfarçado de normalidade, promessas não cumpridas.

Quando finalmente percebi, fui tomado por um sentimento paralisante. Uma frase ecoava alto demais dentro de mim: não é possível que isso esteja acontecendo de novo.

Durante meses, acreditei que a culpa era minha. Passei a dissecar cada detalhe, tentando identificar onde eu havia errado, que lição deixei passar, quais seriam meus “pontos cegos”.

Voltei para a terapia. Conversei com amigos. Orei. Refleti. Expus minha vida a pessoas de confiança, pedindo confronto e verdade. Até que uma frase simples se formou na minha mente — e soou como libertação:

Talvez o problema não seja você.

Vivemos em um mundo quebrado, habitado por pessoas adoecidas. Nem mesmo ambientes religiosos estão imunes. Lugares que deveriam ser faróis de acolhimento, muitas vezes são contaminados por culturas corporativas movidas por ego ou dinheiro.

Nunca sabemos o que relações e ambientes produzirão em nós até que estejamos dentro deles. Viver tentando evitar toda dor pode se tornar uma prisão disfarçada de proteção. Por outro lado, deixar-se endurecer pela decepção pode transformar o coração em uma fortaleza de hipervigilância, ansiedade e controle. Em ambos os extremos, acreditamos estar seguros — quando, na verdade, estamos encarcerados.

A única alternativa possível é a aceitação esperançosa. Aceitar a falência dos sistemas. A humanidade das pessoas. A limitação das estruturas. E, ainda assim, escolher seguir pelo caminho da esperança. Esperança de que pessoas podem ser melhores. De que ambientes de trabalho podem ser justos. De que igrejas podem ser saudáveis.

Seguimos em frente quando concentramos nossos esforços na única coisa que realmente nos cabe: tornar-nos, dia após dia, as melhores pessoas que podemos ser — enquanto oferecemos ao outro o bem que gostaríamos de receber.

Se hoje você se encontra no lugar do “não acredito que isso está acontecendo novamente”, respire. Talvez existam ajustes a fazer, lições a aprender. Mas isso não significa que a culpa seja sua. Nem toda repetição é recaída.Às vezes, é apenas a vida pedindo coragem de novo.

E existe uma grande chance de que, desta vez, o problema não seja você.

About Diego

Born in Brazil in 1988, I grew up in a poor neighborhood where life was anything but easy. My childhood was marked by challenges —racism, violence, and abuse— but I found refuge in books, sports, and the arts.

At thirteen, my life took a turning point when I encountered God in a profound way. That moment changed everything, setting me on a path of faith, purpose, and hope. Since that day I know and believe that hope is a person, and his name is Jesus.